Black Bloc, anarquismo e violência

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Bandeiras negras nas manifestaçõesMolotovFloresBansky

Temos visto nas mais recentes manifestações que se alastraram pelo país, e permanecem com mais força no Rio de Janeiro, diversas reinvidicações e diversos agentes e formas de se reinvindicar. A mídia faz uma divisão entre “pacíficos versus vândalos”, enquanto outras leituras procuram distinguir discursos e ações de esquerda, direita e extrema direita. Em poucos momentos ouvimos falar de grupos anarquistas e na maioria das vezes de forma equivocada.

E esse grande lema, pronunciado por grande parte dos envolvidos nas manifestações, reinvindicando um apartidarismo do movimento? É a ressonância do velho discurso anarquista? E as máscaras, bandeiras negras e a famosa letra A incontida por um círculo pixada na parede? E os coquetéis molotovs, o quebra-quebra, a depredação dos bancos? São anarquistas? Talvez a pergunta mais adequada seja: esses manifestantes violentos são algum tipo de anarquista?

O/A Black Bloc

Ao longo dos anos 80 táticas de defesa e ataque coletivos se desenvolveram durante as manifestações de massa que ocorreram na Europa. Manifestações anti-nucleares, em defesa das ocupações (squatters) e protestos políticos levaram muitas pessoas para as ruas o que gerou grandes conflitos com a polícia, tradicionalmente repressora. Táticas simples de esconder os rostos, produzir bombas incendiárias caseiras (os famosos molotovs), uso das máscaras e vinagre para escapar do gás policial, uso de estilingues etc. Essas técnicas incluem tanto a resistência à força policial, como resposta aos ataques, geralmente desnecessários, por parte da polícia, seja ela alemã, americana ou brasileira.

É do sentimento de que as manifestações pacíficas não surtem efeito, ou ainda, são repelidas com violência abusiva, que se fortaleceram os Black Blocs: grupos de pessoas que se utilizam dessas estratégias em protesto além de se utilizar de outros elementos ligados à tradição anarquista, como a letra A, a bandeira e a vestimenta negra. Essas estratégias vieram a ganhar destaque nas mídias internacionais com protestos anti-capitalistas, como o realizado em Seatle, 1999, durante conferências da Organização Mundial de Comércio.

Talvez o ideal seja entender o Black Bloc como uma estratégia, não como um grupo ou uma rede hierarquizada. Lógico que determinados grupos se formam e podem ser identificados pelo uso de determinada estratégia, mas é um erro acreditar que exista uma (pré)organização internacional conhecida como Black Bloc. Talvez este deva ser, na verdade, o elemento mais anárquico desses “grupos”: a descentralização e independência. Um elemento muito mais importante ao anarquismo do que a violência.

Vândalos ou justiceiros?

A mídia, é claro, faz a pior leitura possível da ações dos tais mascarados podendo inclusive, e provavelmente, atribuir a eles qualquer atitude negativa causada pela polícia. Já os integrantes de Black Blocs sempre dizem que estão protegendo os manifestantes.

Um argumento, porém, deve ser levado em conta: em nossa sociedade, nenhuma violência contra governos e grandes empresas é gratuita. O que não implica dizer que é a melhor estratégia. Mas quem pode dizer, sobre as agências destruidas: coitadinhos dos banqueiros, já sofrem tanto!

Não vamos esquecer da repressão policial aos protestos, assim como não vamos esquecer que aquele ali “fardado, você também é explorado”.

A justificativa (ou não) da violência é um debate que percorre toda a história das nações e do próprio anarquismo, não pretendo resolvê-lo aqui nesse texto.

Pare de fazer anarquia, menino!

Mas os Black Blocs são grupos/movimentos/manifestantes anarquistas? Afinal, o que é anarquismo? Não podemos falar de um anarquismo, mas de vários e suas variações. Existem centenas de autores e milhares de textos que tentam definir o conceito e os princípios do anarquismo. Hoje em dia, infelizmente, temos uma imagem muito única do pensamento libertário. Isso porque o tema é muito pouco estudado e pesquisado e também pela nossa obsessão de categorizar as coisas, de forma simples e quadradinha (como as definições escolares) . A maioria das pessoas acredita que a vertente coletivista resume todo o pensamento anarquista. A ampla disseminação dos textos de Bakunin no meio libertário fez parecer que todo anarquista acredita na revolução operária e armada, pela destruição de nossa sociedade para construção de um novo mundo livre.

Faz parecer também que todo anarquista é adepto da violência. Esse é um problema histórico, pois aconteceram vários atos violentos realizados por anarquistas, especialmente no final do século XIX, de atentados a bomba a regicídios. Conhecido como o “lado negro do anarquismo”, as linhas violentas contribuiram para esse estigma ao movimento anarquista, ainda que Tolstói desenvolva um anarquismo cristão, que os anarcosindicalistas estejam mais preocupados com a tomada das fábricas ou que os anarquistas mutualistas se preocupem mais com bancos de apoio mútuo e cooperativas.

Por isso não quer dizer que apoiar o anarquismo seja apoiar a violência. No meu caso, tenho muito mais interesse pelas linhas anarquistas não-violentas. Como anarquista, não me sinto no direito de dizer que o “anarquismo de verdade” não deve ser violento. Não sou dono da verdade, mas na minha concepção de mundo livre é difícil justificar qualquer violência. Aliás, esse é um caminho perigoso, afinal, as maiores violências, genocídios e escravizações da humanidade, sempre se pautaram em argumentos e justificativas. Será que compensa seguir esse tipo de pensamento? Existe, afinal, violência não-autoritária?

A violência é uma boa propaganda?

No fim do século XIX o conceito de “ação pela propaganda” estava amplamente disseminado no meio anarquista. Embora Kropotkin tenha defendido a ideia contida na sua famosa frase “uma estrutura baseada em séculos de história não pode ser destruída com alguns quilos de dinamite”, muitos anarquistas acreditavam que matar um rei não acabaria com um império, mas que poderia ser uma potente propaganda para os proletários do mundo. Havia também os denominados ilegalistas, que defendiam não apenas o crime político, mas uma vida pautada na criminalidade e no rompimento com a moral e a ética burguesas (Ravachol é o exemplo mais famoso).

Não gosto de ser muito impositivo nas reflexões históricas pois elas são sempre subjetivas, embora a aplicação de uma lógica cronologicamente adaptada nos dê uma sensação maior de porto de seguro, gosto de reforçar a questão interpretativa. Ou seja, não me parece que a violência tenha sido uma boa estratégia para os movimentos ou grupos libertários por dois aspectos: primeiro pela facilidade desse discurso se tornar negativo para a “massa”, que mesmo não sendo burguesa, possui ideologia burguesa. O segundo aspecto, que também me parece óbvio é que, aumentando a violência, aumenta-se a violência repressora e na disputa da força, o aparelho repressivo, policial, é sempre mais bem armado e treinado. É dar soco em ponta de faca e gerar uma repressão mais forte aos pensamentos e grupos libertários, podendo matar ou enfraquecer na “raiz” projetos libertários. E isso com apoio da população amedrontada (exemplo dessa repressão aconteceu na Europa e nos EUA, bem ilustrados através do filme Sacco e Vanzetti e também no livro de Joseph Conrad, O Agente Secreto, onde a própria polícia realizava “atentados anarquistas” para justificar a repressão). Todo cidadão, por mais pobre que seja, tem medo de perder sua pequena propriedade privada. Nós todos temos e odiamos ter nossas casas e carros roubados. Não queremos ver pessoas sangrando.

A violência precisa se desapegar do pensamento libertário. Não é ingenuidade ou pacifismo covarde. Os tempos são outros. Devemos ter ideias violentas. Ideias que sejam desenvolvidas com a força das atitudes. Violento não é quebrar porta de banco. Isso tem nome, etiqueta pra consumidor A e B, isso tem sentido comum, é classificável, administrável, regulado e punido, higienizado, moralizado. Violento é praticar conceitos muito mais caros a tradição anarquista, como o apoio mútuo e o horizontalismo das relações. É isso que pode de fato surpreender o poder estabelecido, confundir, provocar. Quando as pessoas se desprendem da sua vida própria, da sua vida burguesa, pra trabalhar e se dedicar às causas sociais, ai sim elas estão sendo audaciosas. Quando as pessoas se ajudam mutuamente, o Estado se torna um pouco mais desnecessário a cada iniciativa. Junto com a cobrança, a exigência estratégica, poética, o Estado sente a necessidade de adaptar-se. Mas para isso, talvez você não possa ter um carro grandão ou uma estabilidade financeira. Talvez você tenha que readaptar seus hábitos cotidianos, talvez você tenha que ter uma coragem específica, muito maior que vencer aquele frio na barriga e correr para chutar a porta da agência bancária.

É preciso cuidado. Os sentidos das palavras deslizam com facilidade. Anarquismo pode virar fascismo, ainda que a palavra continue a mesma.

 

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Cristian Cobra

Poeta e escritor, mestre em Análise do Discurso, escreve literatura e artigos sobre anarquismo, software livre, cultura digital, direitos autorais e demais temas relacionados. É também coordenador da associação Instituto Cultural Janela Aberta. Blogue com textos e livros à venda: http://www.janelaaberta.art.br/cristiancobra

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